6 de April de 2016 |
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PARA MAMÃES | MENINA QUE USA AMARELO, BRINCA DE CARRINHO E NÃO COME COMO MOÇINHA

Girl plays with toy cars

Viver em um mundo cor de rosa, cheio de laços e babados. Essas palavras são figurinha repetida em textos sobre ser mãe de meninas. É triste ver que essas mães, sem querer, estão cerceando a personalidade de suas filhas desde bebês. Não lembro de ter me afogado no glitter pink na minha infância. Vivi uma infância maravilhosa, fui princesinha, mais moleca, às vezes tudo ao mesmo tempo. O importante foi crescer livre, sem parâmetros impondo o que era certo para mim.

Acho que por isso nunca fui do tipo que fica levantando a bandeira do feminismo, não me sinto vítima por ser mulher. Não me entendam mal, sou a favor dos direitos iguais, sei que tem mulheres que passam por situações que nem posso imaginar, mas fico na minha, não me exalto, não compro briga, não encho minha timeline com mensagens feministas… Não estou dizendo que é o certo, só que é o meu jeito.

Apesar disso, ultimamente, tenho sentido uma vontade frustrante de resolver todos problemas do mundo, assim minha filha poderá viver em um mundo melhor. Por isso, mesmo não sendo o exemplo de engajamento no movimento feminista, desde que me tornei mãe de uma menina, estou mais atenta à questão. Não foi premeditado, mas desde que a Luisa nasceu tenho percebido esteriótipos bobos de “coisas de menino e menina” serem perpetuados constantemente.

Falando nisso, a Juju recentemente fez um post bem bacana sobre Feminismo, se perdeu dá uma clicada aqui

Vocês já ouviram aquela teoria evolucionária que defende que homens tem melhor noção espacial por terem vividos uma Era inteira como caçadores?! Sem dúvida carregamos uma herança genética, isso é comprovado cientificamente, porém, estudos mais recentes atribuem essa habilidade à também à condições ambientais. Na maioria das vezes, aos meninos é permitido mais “atividades exploratórias”, enquanto as meninas são limitadas para não sujar o vestido, ou não estragar o sapatinho. Achava que isso era bobagem, mas acontece com frequência se você prestar atenção. Para não ser generalista, vou contar algumas situações que vivi com minha filha e me provaram como essas situações estão no dia a dia das meninas.

A primeira vez que passamos por isso a Luisa tinha 5 meses, estava no lobby do prédio da pediatra  esperando o carro, quando uma mulher me abordou de forma muito gentil e carinhosa e disse “Que graça seu filho!“, agradeci e prontamente corrigi, “É menina, Luisa.”. Ela me olhou com cara de espanto, e explicou que como ela estava com uma roupinha amarela de bichinho imaginou que fosse menino. Minha reação foi um sorriso surpreso e desconcertado. Sem problemas confundir, bebê a gente confunde mesmo, mas essa desculpa é inaceitável. O que está “errado” aqui o amarelo que deveria ser rosa ou o bicho que deveria ser boneca?! E a história continua, comentei com uma amiga tempos depois, e contei a história em detalhes, descrevi que o body que a Luisa usava era amarelo com uma girafa, e minha amiga complementou, “Que estranho! Amarelo é uma cor neutra!“. Claro! Rosa é de menina, azul é de menino e verde e amarelo, é permitido para ambos os sexos. Como não sabia disso antes?!

Então, quando a Luisa estava com 6 meses, outra situação me marcou. Estava em uma loja de brinquedos, e escolhemos um carrinho para levar para casa, todo bonitinho, colorido, fazia barulhos… Com ela no colo, fui brincando com ela e com o carrinho. A caminho do caixa uma vendedora me chamou e disse: “Esse brinquedo é de menino”. Ah… agora já estava preparada! Com um ar deboche, respondi “Tudo bem! Na nossa família dirigir é uma atividade unissex” e segui meu caminho, perplexa!

A Hamleys, uma grande rede lojas de brinquedos da Inglaterra, já aboliu esse apartheid de gêneros, e adotou uma forma inovadora de organizar os brinquedos nas lojas. Aqui nos EUA a discussão também está rolando há algum tempo.

E a terceira, espero que última, foi em casa com minhas tias. Estava dando comida para Luisa com todas assistindo e falando ao mesmo tempo como ela é linda, uma graça, uma princesinha, bla bla bla, até que uma voz se destacou no meio do burburinho: “Você tem que ensina-lá a comer como moçinha”, se referindo ao fato de eu deixá-la comer com as mãos. Adotei um método de introdução alimentar que chama BLV, Baby Led Weaning, que estimula a criança a usar às mãos para comer (tem suas vantagens, quem se interessar em saber mais informações clica aí no link). Fiquei pensando se ela faria um comentário parecido se fosse um menino comendo?! Acho que nāo!

Notaram que todas as histórias que contei tem mulheres como quadjuvantes? A mulher que falou comigo enquanto esperava o carro, a vendedora da loja e minha tia. Somos machistas e nem percebemos? Infelizmente, não vou conseguir blindar a Luisa dessas questões, vou ensiná-la a lidar com elas. Obviamente, mais para frente, quando ela começar a fazer suas próprias escolhas, não vou tentar convence-la se a se vestir de azul, forçá-la a brincar com “coisas de menino” ou ter determinado comportamento, justamente o contrário, quero dar a ela a opção escolher qualquer roupa, brinquedo ou comportamento, sem interesses pré estabelecidos por esteriótipos de gêneros ou interferências de discursos sexistas.

Até que no meio das minhas reflexões vi uma luz no fim do túnel! Lembrei de uma notícia que li anos atrás, sobre uma menina de 7 anos que escreveu uma carta para Lego mostrando sua total indignação sobre o fato dos personagens femininos da Lego só ficarem sentadas em casa, irem à praia, às compras e não trabalharem, enquanto a versão masculina é aventureira, trabalhadora, verdadeiros heróis… Na época não liguei, mas tem tudo a ver com o que estou falando agora. Que menininha esperta! carta-lego-charlotte-7-anos

O que me fez pensar, não precisamos resolver o problema do machismo no mundo, só mostrar para nossas filhas que elas podem ser o que elas quiserem.

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Categorias: CONVERSINHA, para mamães

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